Catar feijão...
“Catar
feijão se limita com escrever”, concordo plenamente com o poeta, talvez por
circunstâncias diferentes. Vou explicar.
Foi
no ambiente da cozinha de nossa casa, entre catar o feijão e lavar as verduras,
temperos e cheiros inesquecíveis, que aprendi minhas primeiras letras. Papai
trouxe meu primeiro livro. Era ilustrado com lindos pássaros: Arara
– A, Bem-te-vi – B , Canário – C ... Como eram lindos os pássaros! Mamãe com
muita paciência ia fazendo com que eu copiasse as letras. O papel
era papel de pão. Foi realmente uma “alfabetização culinária”.
Tudo
era alegre, íntimo e familiar. Entretanto meu primeiro dia de aula quebrou esta
singeleza, transformando o aprendizado em algo impessoal, autoritário e rígido
como era a D. Jane , minha primeira professora. Quis impressioná-la, quando
mandou que escrevêssemos um determinado número de linhas com bolinhas, escrevi
uma folha com todas as letras que havia aprendido e outra com vários números.
Grande foi minha surpresa quando ela arrancou bruscamente as folhas,
chamando-me de indisciplinada, desobediente e atrevida. Disse-me que fizesse
apenas o que ela mandasse e do jeito que orientasse. Essa foi a primeira das
muitas censuras que sofri na escola por gostar muito de escrever e me expressar
livremente, mas nada disso conseguiu atrapalhar minha paixão pela leitura e escrita.
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